terça-feira, 1 de junho de 2010

PARATY



a pomba do Divino e as imagens de São Francisco estão em todas as partes da cidade

em uma fazenda de pelo menos 200 anos, o café servido é moído na hora e preparado em fogo de lenha




quinta-feira, 27 de maio de 2010

sábado, 22 de maio de 2010

A FESTA DE SANTO ANTÔNIO, EM NITERÓI (RJ)


O mês das comemorações por Santo Antônio guarda festas juninas, por todos os cantos do País. Em Niterói, cidade que faz a ligação da Capital com o interior do Estado, caipiras enfeitam a rua da Igreja Porciúncula de Santana, no bairro de Icaraí. O fechamento da rua possui muitos significados. Três se destacam: trata-se de uma festa tradicional de uma cidade não tão grande assim; é uma festa de Paróquia e a alegria não vê limites nos muros da Igreja; Santo Antônio é o Santo popular que não cabe entre os muros.

Niterói é bem menor do que o Rio, a Capital, e lembra um pouco o interior do Estado. Fosse na cidade grande, não seria tão fácil a interrupção, do trânsito local, por uma festa, que não é o show da Madona ou dos Rolling Stones. Necessariamente haveria muito mais critérios para fechar uma Avenida de uma cidade como o Rio. A Rua de acesso é a Av. Roberto Silveira. É, nada mais e nada menos, a principal da cidade. Pois este é o endereço, em Niterói, de uma festa popularíssima, no Nordeste do Brasil, e que é famosa, no Centro–Sul, justamente por caricaturar os costumes dos sertanejos. A rua da Igreja, esta em foco, talvez não fosse a maior referência caso estivesse localizada na cidade sede do Governo do Estado.

A impressão que dá é a de toda uma cidade presente ali, embora isto não seja a realidade. Esta ficção se confirma dependendo do nível de animação proporcionado. O movimento intenso , a música e a bebida alcoólica podem aumentar o efeito. A mesma imaginação é também a que leva a extrapolar os limites, marcados pelos muros. Se é uma festa para a cidade inteira , então , as fronteiras físicas não possuem mais a importância que têm quando separam o privado do público. É como se fossem derrubadas, postas abaixo. Ganha-se, portanto, a rua. Conquista-se o espaço público. Há mesmo uma relevância, neste caso, de dar à Paróquia o que lhe é devido: uma posição central no processo de ocupação do espaço da cidade, quando esta não é uma metrópole.

Finalmente, a devoção a Santo Antônio possui características próprias. A sua popularidade é tão grande que chega até ao “povo da rua”. Aliás, por que o leigo, sobre a sua vida e obra, não mereceria ser ouvido? Talvez este seja versado sobre uma característica de Antônio que deve ser lembrada: a da boa fama. O Santo protetor dos pobres quer dar acolhimento aos mendigos e todos sabem onde eles estão: nas ruas. A festa é para fora do espaço privado. É nas calçadas onde transitam as pessoas ao som dos forrós e outras músicas. É no espaço público onde as barraquinhas recebem as pessoas ávidas por comidas e bebidas. É onde o Santo casamenteiro acompanha a todos: na rua.

Niterói abre-se para os festejos diferente de uma Metrópole. O entra e sai tem a Igreja como referência e vai além dos limites do público. Santo Antônio é do povo. E a festa vai começar!
...........................................................................................

Guilherme Valle, sociólogo

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A SANTA E A “DADA”: DUAS MULHERES


Na Igreja Romana, a devoção à Maria ganha ares de recato. Basta olhar para a imagem da Mãe de Deus: apenas deixa aparecer o seu rosto. Na Umbanda, Iemanjá pode ser exibida com os seios à mostra. Nenhuma pureza das vestes de Maria encobre a divindade de origem africana. Fica uma sugestão: uma é a Santa e a outra está bem longe disso. Mas são ambas mulheres. Nada mais e nada menos.

Santa Maria vem vestida com “sobriedade”. Dificilmente será encontrada, enquanto a sua imagem estiver sendo cultuada, com roupas diferentes de túnicas, que só permitem ver as mãos. Isto quando não são usadas luvas. A cabeça vem sob o véu. Face e mãos demonstram um comportamento de tranqüilidade favorável às pessoas em momento de oração. Mãos retas e juntadas ou direcionando um movimento unificado. Rosto sem aparentar tristeza ou alegria figuradas em olhos e bocas de lamentos ou sorrisos exagerados. (considerando que uma mulher de fé , como Maria, não se desesperou diante da Cruz) Muitas outras sugestões poderiam ser lembradas aqui. Mas parece desnecessário relatar uma Maria Santíssima tão casta, pois é assim mesmo que é vista em sua figura pintada pela Igreja Poderosa, sediada no Vaticano. Já é bem conhecida sob tantos panos e tecidos. Um detalhamento maior é um trabalho desperdiçado. Basta um “manual” que produz “cópias” de Maria ao estilo noiva de um anjo.

Iemanjá pode estar seminua. Ou nua mesmo, se for o caso de uma mulher que não traz consigo uma das peças de sua roupa. Assim retratada, acaba sugerindo alguma atitude corporal menos passiva em uma interação humana. Certamente não aparenta um corpo inerte, como é representado o equipamento humano em uma foto de manual de anatomia médica. Os braços buscam um encontro. Não estão, portanto, desenhados retos voltados para baixo. Ou então mostram-se soltos e não caracterizando o direcionamento que os leva a um ângulo de 90 graus com o chão. A parte inferior do corpo também passa a idéia de movimento, o que, mais uma vez, não se enquadra na atividade/passividade da pélvis para dentro do corpo (o sentido para fora do corpo é desenvolvido com o corpo mole e não rígido) ou direcionada para o chão. A cabeça parece acompanhar o resto do corpo ou fica solta para trás. Para frente ou para trás, certamente não é passiva como seria se fosse servir como modelo de anatomia.

Iemanjá não é Santa para os católicos, mas também transmite bondade em seus gestos. Maria é completamente Santa, mas é também mulher. Como exemplo feminino, não o é por sua anatomia simplesmente. Vive no corpo de uma mulher muito além da sua Santidade. Ou, como humana que foi (e continua sendo), está muito aquém da “santinha”. Pois é simples, como é o seu filho Jesus. O que pode parecer abstração teológica não passa de uma defesa humana do que há de mais humano.

....................................................................................................

Guilherme Valle, sociólogo

domingo, 16 de maio de 2010

SAMBA DO VAI E VEM


Entra e sai
na fila um vai não vai
um companheiro sai
outro no samba cai.

Entra e sai
o povo vem não vem
dois companheiros têm
medo do não do Pai.

Vai e vem
no sim ou não de alguém
no coração, que nem
o sai não sai de um trem.

Vai e vem
ajeita aqui e lá
não dá pra comparar
sai mesmo é quem quer ficar.
...............................................................................................
Guilherme Valle

quinta-feira, 6 de maio de 2010

ELEIÇÕES 2010: CONTRA A RADICALIZAÇÃO ENTRE PT E PSDB


É necessário tentar trazer o tema das eleições para a roda. Pois pouco adianta refletir sobre isso apenas dois minutos antes de digitar o confirma, na urna eletrônica. É preciso trazer a tona a política eleitoral com antecedência. Para atingir essa meta este texto pode ser útil. Ao menos para estimular uma conversa. De cara, os próximos meses não podem ficar resumidos a um jogo, de bater e apanhar, entre PT e PSDB. O processo eleitoral, assim realizado, fica simplificado demais. Melhor mesmo é tentar aproximar os dois maiores partidos brasileiros. É enxergar os últimos dezesseis anos, da política brasileira, como um período de continuidade entre dois projetos afins.

O cenário de oposição acirrada entre os dois partidos não pode interessar ao eleitor. Eleições não são como final de campeonato. Interessa mais aos petistas e social democratas paulistas essa radicalização. Não ao Brasil. Apesar de São Paulo ser o Estado mais rico, há também áreas carentes dos serviços do Governo, como o Nordeste do Brasil. O Estado de Minas Gerais precisa ser respeitado nas suas vontades. A Amazônia merece ser trazida, com mais profundidade, para o cotidiano do Sudeste. Nada contra os paulistas. O PT paulista quer dividir a Federação brasileira em dois partidos antagônicos e transformar as decisões soberanas, como é a Eleição, em simples plebiscitos. O PSDB paulista reforça, erroneamente, o desejo de “tirar sangue” do outro. São erros das duas partes, que fingem estar em conflito, quando, na verdade, tiveram uma origem comum. Basta lembrar que, na década de 70, Fernando Henrique (PSDB) participou das reuniões que levaram à fundação do PT.

A proximidade, entre petistas e social democratas, deve ser buscada. Mediar conflitos é melhor do que botar mais “lenha na fogueira”. Não se trata apenas de governar juntos, mas deixar claro a diferença entre as duas agremiações. Embora para o PSDB essa distinção partidária signifique pouco demais. E para o PT isso possa servir de credencial, com pouca validade, para proteger os amigos, de acusações graves, na política. Há, sem dúvida, algo importante para a economia e para a política, nos últimos vinte anos. O Plano Real. A estabilização dos preços. Apesar de implantado por FH, o fato é que o governo do PT também foi beneficiado por ele. Há, portanto, uma mesma orientação , nos dois governos dos dois partidos, na condução da economia. Isto é uma prova de que não há mudança radical de um governo para o outro, mesmo sabendo dos prejuízos de manter, de forma exagerada, os preços sob controle. É importante saber escolher aliados políticos. Almejar uma conciliação dos dois projetos para que as duas forças não fiquem, cada uma separadamente, lançando mão de alianças prioritárias com partidos como PMDB e DEM e nem agremiações ruins como PR, PTB e PP.

É delicado tratar de política dentro de um grupo de Igreja. As duas coisas não se misturam, embora não seja possível deixar o tema de lado. É preciso avançar nesta discussão até o limite de não tentar convencer um eleitor de partido A ou B. Sem o PT e o PSDB, sobram o PV e o PSOL. Optar pela causa do meio ambiente (PV) não é privilégio dos verdes. O socialismo (PSOL) é também um espaço de atuação política legitimado dentro da Igreja. O que não impede que PT e PSDB deixem as suas diferenças de lado.

................................................................................................

Guilherme Valle, sociólogo

quinta-feira, 15 de abril de 2010

AS OLIMPÍADAS DE 2016 VÊM AÍ!


Política

Parece frustrada a expectativa, por parte de alguns, da aproximação de PT e PSDB. Lula coloca lenha na fogueira da disputa quando fala de perigo de retrocesso.

Se os tucanos ainda demonstram boa vontade com o governo do PT, o mesmo não ocorre no sentido inverso. Uma aliança entre os dois maiores partidos brasileiros está se tornando um sonho distante. Prevalece uma competição, em torno dos paulistas de ambos os lados, que vai se radicalizando, conforme o cenário das eleições vai sendo desenhado.

Se em outros momentos o Presidente fez questão de exibir a sua qualidade de habilidoso mediador político, que priorizava a conciliação, agora está surgindo um jogador agressivo. Sem querer associar o fato à proximidade das eleições apenas, pois seria uma simplificação do debate, mesmo assim vale lembrar que em 2006, na última eleição presidencial, aconteceu a mesma coisa. Como Lula foi vitorioso naquele ano, então ele está repetindo a fórmula.

O PT, no governo, foi fiel, principalmente no seu primeiro mandato , à política econômica que o PSDB implantou antes. Mas prefere colar a responsabilidade, das piores coisas que aconteceram, na testa do tucanato e fingir que não é com ele.

Planejamento das Cidades

O cheiro de lixo, em outros bairros de Niterói, que a tragédia do Morro do Bumba colocou em evidência não é uma eventualidade. Os resíduos sólidos estão, em toda parte, acondicionados de forma precária. Melhor: descartados sem critério.

Seria obra do acaso um acontecimento desconectado dos problemas da cidade global. Não é o caso. O odor penetra em áreas que vivem o drama da má gestão dos resíduos. A calamidade tem a função de chamar a etenção para o problema. E fica clara uma relação causa e efeito que extrapola os limites de apenas uma área degradada.

Nem todo o lixo de Niterói terá como destino aterros sanitários controlados. Por isso, mesmo que sob cuidados da Administração local, os resíduos são em boa parte clandestinos. A natureza deste material, jogado fora por não ter mais uso, é,ela mesma, difícil de adequar-se ao rigor da Engenharia Urbana.

Economia

O aumento geral dos preços não pode servir como argumento para o aumento dos juros básicos. A inflação dos alimentos é um falso pretexto para a elevação da taxa Selic.

Para uma economia ortodoxa os juros são o principal fator a ser analisado. O são mais ainda do que a geração de empregos, de qualidade e formais. Mas a heterodoxia propõe flexibilizar o rigor que impõe restrições ao crédito. Mais precisamente para torná-lo um produto menos escasso e, portanto, não tão caro. Melhor ainda se este estiver sendo direcionado para os investimentos na capacidade da economia de crescer e de empregar.

Os alimentos caros, principalmente por serem vilões das famílias mais pobres, servirão como justificativa para os juros que, diz-se, combatem a inflação. Principalmente porque, junto com o Plano Real, surgiu uma política social mais eficiente, como é o Bolsa Família. Sob o Real fica mais fácil o cálculo das necessecidade dos mais pobres para doar a bolsa. Porém, o benefício é uma percentagem muito pequena, no Orçamento, quando comparado ao tamanho crescente da Dívida Pública, que é favorecida pelo interesse dos seus maiores credores, estes que a financiam sob taxas de juros elevadas.

Internacional

As tragédias no Haiti e no Chile foram bem diferentes. No país caribenho, foi a pobreza a responsável . No Chile, foi uma catástrofe natural mesmo.

No Haiti, as casas são construções bem precárias. Não resistiram e vieram abaixo. O saneamento nas cidades afetadas funciona muito mal. Isto tornou o potencial de transmissão de doenças enorme. Lixo pelas ruas, pouco abastecimento de água e rede de esgoto mínima são componentes que amplificaram o risco de mortes. A interrupção dos transportes foi fatal para dificultar ainda mais a circulação das pessoas. Tornando mais lenta a chegada de ajuda dos outros países e mesmo impedindo a saída emergencial dos doentes para serem atendidos em locais apropriados. A atuação da Devesa Civil, e dos órgãos de segurança pública, teve limitadas possibilidades, em alguns casos sendo total a ausência de qualquer autoridade que pudesse executar tarefas urgentes para conter o que veio a ser um dos maiores números de mortos já registrados.

O Chile é um país mais rico e, portanto estruturado para resistir a tremores. Principalmente a qualidade maior das construções já é suficiente para amenizar o sofrimento.

..............................................................................................................................................

Guilherme Valle, sociólogo

terça-feira, 13 de abril de 2010

PASSAGEM

Caindo a noite, poemas surgiram.
Infinitos, fragmentados.
Todos refletindo a beleza das luzes baixas.
Projetando imagens virtualmente em cores.

No primeiro instante um ato do crepúsculo.
Um cometa saltitante nos extremos do céu e da terra.
Apagava antes mesmo do dia.
Reluzia após o último raio.

Em mais um segundo outro ato.
O amor fervia em algum canto do corpo.
No frio da noite o suor.
No calor o sossego e a brisa.

Por fim a história em apenas um ato.
No rosto a apresentação do drama.
Nas mãos o sangue da tragédia.
E no sorriso a leveza do amarelo forte.
............................................................................
Guilherme Valle

quinta-feira, 8 de abril de 2010

TEMPORAIS, MERCADO IMOBILIÁRIO E EXCLUSÃO

As chuvas de abril levam ao debate sobre como o Rio de Janeiro e Niterói enfrentarão desafios para as Olimpíadas. Em toda a Região metropolitana, o número de mortos chegará a casa da centena. Não se trata, como afirmou o Prefeito Eduardo Paes, de um problema atípico. As duas cidades não possuem uma rede de infraestrutura urbana que dê conta da acelerada expansão do mercado imobiliário. Esta é a causa. E as mortes não são uma fatalidade, mesmo que o volume de chuvas tenha sido maior que o normal. O administrador cobrou também que os “demagogos” venham a público, agora, para criticar as remoções nas favelas. Pois é preciso afirmar, sem medo de errar, que as transferências forçadas aumentam uma cidade segregada entre ricos e pobres. Um pacote de políticas que apenas afastem a população menos favorecida das áreas centrais, sendo construídos conjuntos habitacionais nos bairros periféricos, provoca exclusão social.

Conforme a manchete de O GLOBO, há quarenta anos a cidade do Rio sofre com um mal sem solução. A cidade precisa estar preparada para receber fortes chuvas. Mesmo que ocorram, em épocas do ano, quando não são tão esperadas. Não está pronta no verão, quando são mais freqüentes as tempestades. Nem no outono (como é o caso) ou em período algum. A tragédia não é devida a um índice pluviométrico elevado. Mesmo fosse este o motivo principal, o número não seria resultado de um cálculo que apenas leva em consideração um volume extra de água que precipita, como seria um cálculo diferenciado. Mas representaria o volume de água que precisaria ser contido, de alguma forma, quando já não é tão absorvido pelo solo. Pois caso houvesse absorção absoluta de um volume diferenciado, então não teria porque ser calculado como um problema de Engenharia Urbana. É preciso haver regularidade no oferecimento de um serviço público que visa criar obstáculos ao alcance dos dramas eminentes. Um sistema eficiente de controle de cheias urbanas e um limite, à ocupação desordenada do território, criado precisam funcionar. Sem falar nas emergências que merecem políticas, de defesa civil, que cumpram o seu papel. A água da chuva tem que escoar para algum lugar. No seu percurso, ganha peso. Se estiver canalizada, passa a ter uma força extraordinária. É necessário, para que a cidade evolua a sua tecnologia, uma conciliação entre: a velocidade atingida pela água pluvial, no interior da rede, e a esperada de um veículo de passeio. Mas o que ocorre é, sob a primeira meta divergente entre as duas progressões, não há a garantia de um erro calculado (ou de um conflito administrado), podendo ocorrer uma total adversidade. Quanto a desabamentos, onde o sofrimento humano fica mais evidente, parece haver uma concorrência predatória: entre a verticalização, cada vez mais acentuada, na construção da cidade e uma lei da gravidade simples, que tem conseqüências devastadoras quando chove no morro. A rede de drenagem deve facilitar o fluxo, da água da chuva, no interior do solo. O seu funcionamento débil não é um problema atípico. E nem menos freqüente é um novo prédio instalado por cima da mesma antiga rede ultrapassada. O lixo descartado, sem muito critério, também é um motivo de entupimento. Merece ser melhor administrado pela prefeitura. Por fim, a maré alta na praia também é um fator que aumenta os riscos. Impede que o mar sirva como desaguadouro da força que foi imposta pela chuva. Cada um desses fatores requer análise detalhada. Portanto, apenas um desses ( a exceção da maré alta, que não se relaciona com o problema global, como o fazem os outros fatores )já oferece uma explicação mais completa. Bastante incompleta é a que defende um cenário excepcional de cheias, como na fala do Prefeito do Rio.

Com relação à demagogia acusada pelo Prefeito, há aí um erro de observação. As habitações populares (localizadas nos morros) possuem uma rede de saneamento precária precisamente porque estão em áreas segregadas. A prefeitura não sobe as favelas e, assim, não oferece os seus serviços lá. As chamadas comunidades vão se formando isoladas. Uma solução encontrada, e freqüentemente trazida às discussões, é a dos conjuntos habitacionais distantes. Mas é importante lembrar que os morros são ocupados porque os trabalhadores não podem gastar dinheiro com transportes, indo morar o mais próximo o possível dos seus empregos. As cidades, em um modelo de desenvolvimento moderno, crescem em direção aos subúrbios. Seguem uma linha de expansão que inicia nos centros urbanos e finaliza nas áreas mais longínquas. O subúrbio não é uma solução que substitua as moradias precárias verticalizadas do Rio e de Niterói. Os conjuntos manteriam a exclusão social atual e ainda iriam inviabilizar a circulação urbana. Aliás, especificamente sobre transportes, a região metropolitana de São Paulo é um péssimo exemplo da modernidade até as últimas conseqüências. Os enormes engarrafamentos dos paulistanos são a prova da falência do modelo de moradias distantes dos locais de trabalho. Sem contar que acabam sendo priorizados os transportes individuais em detrimento dos coletivos. Fala-se muito em ocupação de terrenos públicos, próximos ao centro do Rio, para uso pelos programas de habitação popular. Seria uma boa alternativa, mas isso não parece estar sendo levado muito a sério pelos diferentes níveis de governo. Bem lembrou o prefeito do destaque dado a esses temas, em momentos como esse, e que depois cai no esquecimento. Mas esta atitude de agir por “rompantes” parece ser, antes de mais nada, a da prefeitura, seja do governo A ou B (desde César Maia). Não se houve falar de um programa habitacional, de grande porte, da prefeitura. O que se vê é um varejo de iniciativas desarticuladas entre si. E estas tornam-se piores por dependerem do governante de plantão. Não são de longo prazo, mas de curtíssimo. Faltam projetos transformadores. Sobram ações isoladas. Paes já se mostrou bem favorável à remoção de favelas e só não faz isso porque teme, sim, ficar com a imagem prejudicada frente a população. Antes de uma convicção bem fundamentada contrária a este tipo de medida, é o medo de se indispor com a opinião pública que o faz recuar de um choque de ordem no morro. César Maia também agia assim. Ou melhor, não agia quase nunca. A segurança das casas é um bom motivo para a mudança, de algumas, de lugar. Talvez a prefeitura esteja atuando neste sentido. Mas uma retirada generalizada ou a construção de um muro, rodeando todas as casas, têm o mesmo simbolismo: o da exclusão da cidade.

Como foi visto, as chuvas ocorreram devido ao seguinte descompasso: entre o adensamento populacional, que é maior em algumas áreas, e o aumento da capacidade da rede de saneamento de fazer fluir as águas. Até agora, têm sido tempos que correm desarticulados. E sobre as remoções, não podem visar a transferência dos moradores para os conjuntos dos subúrbios. Apenas devem ser um caso, bem criterioso, de administrar uma política de defesa civil. Crescimento ordenado e morros seguros combatem a segregação e a exclusão. E as águas podem vir com força que a rede as suporta.
.......................................................................................................
Guilherme Valle, sociólogo

quarta-feira, 31 de março de 2010

POR UMA ECONOMIA HETERODOXA

O Brasil entrou na década de 90, a partir da abertura comercial, com propostas liberalizantes para a sua economia. Avançou este processo na gestão de FHC. E mais ainda na de Lula, a partir de 2002. É preciso uma mudança de rumos , agora em 2010, que mantenha a estabilidade alcançada com o Plano Real, mas comece a reduzir com mais intensidade os juros básicos sem se deixar amedrontar pelo risco inflacionário.

A frase de Fernando Collor, em seu curto governo, tratando os automóveis brasileiros como “carroças”, que precisariam ser substituídas por modelos importados mais modernos, é bem esclarecedora. A indústria automobilística montadora nacional deveria , rapidamente, se adequar aos novos tempos, de acordo com essas determinações. Era vista como pouco competitiva no mercado internacional. A sua reestruturação seria a receita de sobrevivência. A hiperinflação foi atacada por uma política de choque, quando, de um dia para o outro, o confisco bancário seria um remédio para sanear as finanças da nação. Não durou muito tempo: os preços voltaram a aumentar. Apesar de o Real ter seguido, mais tarde , por um outro caminho, o que o fez relativamente bem sucedido, a abertura comercial da Era Collor foi um dos fatores que o ajudaram para uma boa execução.

O período de Fernando Henrique, marcado pelo desenvolvimento do Real, foi inspirado por um modelo de Estado Mínimo. Este teve nas privatizações o seu lado mais polêmico, nas reformas estruturais, nunca concluídas, a solução alardeada para a busca de um equilíbrio fiscal e ainda nas políticas sociais, com gestão mais moderna, a face Estatal atuante no combate a pobreza e visando a ampliação do nível de escolaridade. A diminuição do tamanho do Estado era vista como uma das formas, com enorme destaque, de torná-lo mais eficiente. Depois de oito anos, o desemprego não recuou, o crescimento do PIB foi pequeno e o investimento público, na ampliação da infraestrutura da economia, foi pouco, considerando o tamanho de um país em desenvolvimento como o Brasil. O lucro dos bancos foi enorme, ao fim daqueles anos, principalmente pela altíssima taxa de juros básica que lhes foi muito favorável. O Real se consolidou e a estabilidade de preços foi um importante fator para que houvesse, ao fim e ao cabo, distribuição de renda. Mas a pobreza continuou alarmante. No governo tucano iniciou-se o regime de metas para a inflação, a flutuação cambial e o ajuste fiscal era uma pré-condição para o sucesso do Real.

O governo de Lula acentuou o caráter ortodoxo da economia, principalmente em seu primeiro mandato. O Bolsa Família nunca foi (e nunca será), a não ser que se queira torná-lo de vez um programa sem foco e ineficiente, mera distribuição de dinheiro para famílias pobres. Mas serviu muito bem, em todos estes anos, como forma de compensar a tremenda dívida que o governo vem deixando para o Brasil. Pior, uma dívida que rendeu lucros recordes para os bancos. Naqueles anos sob Antônio Palocci, o crescimento da economia mundial foi elevado. E o Bolsa Família pagou muito pouco aos pobres quando considerado que já era uma medida falha para atender ao que era visto na sua propaganda. Era superdimensionado, embora a realidade fosse outra, no seu propósito de diminuir as desigualdades. Mais ainda, nos anos que se seguiram, houve um aumento ainda maior do PIB brasileiro, mas praticamente já havia sido batida a meta tão alardeada de 10 milhões de famílias recebendo o benefício. Este número, na casa dos milhões, ainda cresceu posteriormente. Mas não tinha relevância para o debate mais importante, de um combate mais efetivo da pobreza, que incluísse variáveis de política econômica. Com todas essas informações colocadas, mesmo assim é preciso dizer: o gasto total anual com as bolsas, até agora, foi muito baixo quando comparado com o tamanho da dívida pública interna brasileira, que é financiada por banqueiros cada vez mais ricos ( em uma variação tal dos seus lucros que, talvez, sirva mais para manter a dívida em altos patamares, em um prazo indefinido, em vez de contribuir para a sua diminuição mais acelerada). O regime de metas de inflação foi perseguido, rigorosamente, pelo Banco Central, desde 2003. O que em alguns momentos parece exagero, pois se a alta dos preços não está no centro da meta não há problemas. Ainda é possível alguma variação, para mais ou para menos, e o controle do processo será mantido da mesma forma. Nos anos todos desse governo, o câmbio flutuou livremente. Não houve intervenção por parte da Fazenda. O dólar barato, como ocorria ainda agora, é desfavorável às exportações. O dólar caro, como aconteceu nos dias da posse de Lula, era sintoma da fuga de capitais estrangeiros. Revelava a vulnerabilidade da nossa economia e levou ao aumento extremo dos juros pelo BC. No primeiro mandato, houve rigor com as metas de superávit primário (economia para pagamento de juros). No seguinte, nem tanto, bastando a crise de 2008/2009 para a flexibilização das metas. Pode-se dizer que os agentes do mercado financeiro entenderam como tivesse havido algum rigor, embora algumas destas opiniões, corretamente, tenham criticado a elevação dos gastos governamentais correntes e o baixo nível dos investimentos públicos.

É necessário fugir da amarra imposta pelos ortodoxos. Eles valorizam o controle da inflação mais até do que a capacidade, da economia, de gerar empregos. A crise, em 2008/09, pagou-lhes tributos, apesar da diminuição dos juros. Mesmo assim, continuaram muito altos. O suficiente para remunerar um capital que encontrou o seu paraíso nos ditos países emergentes. Buscaram taxas de 9%. Enquanto isso, Estados Unidos e países ricos da União Européia não lhes garantiam nem 1 ou 2%. Na América, os juros foram a 0% (zero). Estes mercados elegeram como emergentes nações que passaram a ser chamadas de Brics: Brasil, Rússia, Índia e China. Foi a sigla inventada por Agências de Classificação de Riscos, que as recomendam como destinos para investimentos. Seus padrões para análises são distorcidos, pois têm entre suas variáveis pontos positivos atribuídos a governos como o da Ditadura Chinesa, esta que pode impor ao seu povo um livre mercado. À exceção da Rússia, os outros não foram afetados pela crise, em suas finanças, como foram os EUA e a União Européia. Passada a crise no Brasil, aqui já aumentam as especulações sobre a inflação. Esquecem que uma das novidades do Plano Real, e que foi uma das qualidades que permitiram o cumprimento de expectativas, foi trocar os choques de inflação pelo controle desta. Segurar, com máxima prioridade de política econômica, os aumentos de preços bem próximos do centro da meta pretendida lembra mais uma opção pelos choques. Um monitoramento mais eficiente visando o controle, me parece, permitiria alguma variação , desde que não ultrapassasse os limites mínimos e máximos. Mesmo respeitando as metas, o mais importante seria um estímulo à atividade produtiva, não sendo aconselhável criar obstáculos ao crédito. Uma preocupação desnecessária com a inflação está levando ao aumento das expectativas futuras com os juros e a alguma escassês de crédito no mercado. Em uma visão mais heterodoxa, seria possível também, sem intervenção da equipe econômica (a exceção do BC atuando no mercado de câmbio), chegar a um dólar desejável em torno dos 2 reais. Nem muito barato e nem muito caro. Com relação ao superávit primário, deve ser acompanhado de outras medidas que indiquem um ajustamento das contas públicas, não sendo suficiente.

A diminuição dos juros precisa ser mais acelerada. É verdade, não deve vir em apenas uma “canetada” do governo. A progressividade coopera com a necessidade de respeitar as expectativas do mercado financeiro. Mas deve ser mais intensa, menos tímida. A manutenção das metas inflacionárias , da flutuação no câmbio e do rigor fiscal já são uma sinalização para os economistas atuantes nas bolsas. Entretanto, um conservadorismo que iniba uma queda maior nos juros básicos são um aceno para uma minoria de grandes capitalistas das finanças, que pretendem viver sob a sombra dos favores de um governo com uma alta dívida interna lucrativa. Estes não esperam do Brasil um país produtivo. Esperam mais um futuro próximo com uma inflação em índices crescentes que force o governo ( este convencido da necessidade de favorecer alguns poucos agentes financeiros nacionais influentes em Brasília ) a uma inibição do consumo, através de obstáculos ao crédito para produtos que geram poupança e que também exijem investimentos dentro do processo produção-consumo. Já é hora de enfrentar o medo dos preços em elevação com mais facilidades ao crédito que leva a investimentos na capacidade produtiva
do país.
.........................................................................................................
Guilherme Valle, sociólogo

quinta-feira, 25 de março de 2010

A IGREJA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO E O SEU PAINEL FRONTAL

Em Niterói (RJ), há uma linda Igreja erguida, há mais de 300 anos, que necessita uma escadaria para ser alcançada. Fica na importante rua que faz referência, em seu nome, ao mesmo dogma católico: a Conceição. Um enorme painel de azulejos cobre a sua fachada e homenageia a figura de Maria. Lembra as imagens de Santo Antônio na frente das casas de famílias com ancestralidade portuguesa. Maria e o Santo casamenteiro vêm proteger os fiéis que adentram o local e comunicar, com alguma peculiaridade no uso da sua linguagem, a mensagem cristã, ao menos do ponto de vista do católico que reproduz os valores de sua Igreja.

O painel possui cores e fica bastante destacado, ocupando posição centralizada na altura e largura do prédio. Revela a Graça de Maria. Populariza o culto da Mãe de Deus na medida em que deixa , para a admiração dos olhos dos transeuntes, uma imagem que poderia ser comparada a um outdoor, não fosse uma certa sacralidade. A ostentação da Virgem pode não agradar a fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, estes que não cultuam imagens. E que também não aceitam e até atacam a aproximação, no Brasil tradicional, entre o catolicismo e os rituais afro-brasileiros. Mas o povo católico, à exceção daquele que prega um tipo de ação afirmativa da sua própria prática religiosa (como é o caso de alguns membros da Renovação Carismática Católica), não oferece obstáculos (e até se relaciona muito bem) à comunicação da Conceição na figura (conforme descrita aqui) da Mãe Santíssima.

Santo Antônio pode vir a ser uma importante referência para o uso de imagens religiosas no Brasil. Lembrando a sua personalidade marcante e algumas das suas características, então os azulejos nas casas portuguesas não poderiam referir-se a outro Santo que não ele. Existem painéis de São Jorge, e também outros, mas apenas Antônio é um Santo casamenteiro e protetor dos pobres. Opõe, para um relacionamento, duas famílias que fundam um lar abençoado pelo Santo em questão, o que faz casamentos. Protege e inclui socialmente os pedintes que batem à porta e miram a sua face gloriosa.. Os excluídos tornam-se incluídos por um ritual que celebra a família em torno do Santo de origem portuguesa. São sugestões , de caráter religioso, para excluídos e incluídos. Antes, são rituais que, a partir do dualismo casa e rua, levam ao universo da casa sem mais obrigações com a ancestralidade do que as que deveria ter com Antônio. E levam ao mundo da rua que pode ser usufruído sem abrir mão das relações. Se a figura de Santo Antônio falasse, posicionada na parede externa da casa, diria: sejam abençoados aqueles que alimentam relações e também os muitos pobres.

Trata-se de uma forma de comunicação peculiar. É interessante mostrar, às pessoas da rua, um Antônio representado em formato bidimensional. Mais admirável ainda é ver, bastante ampliado, o formato, sem perder o nexo , agora representando Nossa Senhora Conceição. Fica expandido o efeito causado por alguns poucos azulejos ajuntados. De longe, praticamente já não é possível reparar os riscos, que os separam, passando o todo a valer mais do que as partes. Vale, para a imagem do Santo casamenteiro, a seguinte percepção: se um único azulejo fosse suficiente, este teria que ser disposto parecendo mais um losango do que um quadrado. Como fosse um balão tradicional de festas juninas, Antônio receberia destaque. Mais azulejos, agora voltando a eles em uma quantidade considerável, para chegar a formar um painel podem provocar uma distorção na figura, que se tornaria desproporcional. Não é o que ocorre com a Conceição, cada vez mais bonita conforme aumenta de tamanho. Quanto ao caráter bidimensional, vale lembrar que uma forma grande pode causar maior “presença” da Santa, o que praticamente não caberia em apenas quatro linhas de uma dimensão. Fica evidente, então, a complexidade do enquadramento e que faz, mais bela ainda, uma imagem “traduzida” em “cores próprias”. Igualmente, Antônio fica mais belo com esta “tradução”, embora a imagem em gesso, se possível em tamanho próximo ao humano, seja insuperável.

A Nossa Senhora da Conceição fica bem no alto, como se mirasse a praia. De fato, mais adiante, é possível ver o mar. Na Igreja que faz uma homenagem a ela, sob o seu teto, é confortável viver em comunidade. É como sentir-se em casa. Ou, na imaginação, em casa, devotar-lhe os pensamentos é como estar lá. Seja adorando o lindo painel ou ficando sentado , em um dos bancos da nave, admirando o altar.
-----------------------------------------------------
sociólogo Guilherme Valle



segunda-feira, 1 de março de 2010

ELEIÇÕES 2010: A HABILIDADE POLÍTICA DE LULA E AÉCIO

Partindo da idéia de que Lula tentará retornar em 2014, o que é questionável, um cenário eleitoral, para 2010, certamente deve passar por dois grandes personagens da política atual. O próprio Presidente do PT, que está dando as cartas na disputa que se avizinha. E o Governador Aécio Neves, respeitado por ambos os lados, que em uma eleição de feitio plebiscitário, como dizem querer os petistas, mesmo assim irá destacar-se a partir de um papel de moderação.

Lula, exercendo a função de mito político da redemocratização e atingindo um grau de popularidade tal que personaliza, como nenhum outro, um desejo do povo de transformação, está dando a última palavra em várias negociações entre aliados ou não aliados. Em um determinado momento, foi cogitado um terceiro mandato consecutivo para ele. Mas o assunto perdeu destaque e o PT, ao propor a candidatura da Ministra da Casa Civil, expos a idéia de uma eleição polarizada entre a atuação do atual governo e a do anterior (FH). Esta foi a solução que a direção do partido encontrou para conseguir dar unidade ao frágil discurso que mobilizaria a sua militância representada pelos delegados no Congresso petista. Em tempos de lulismo, o formato de plebiscito está guiando as discussões do PT. Estas, cada vez mais, tornam-se burocráticas no seu conteúdo e simplificadas em sua forma. Essa afirmação pode parecer contraditória, mas para uma agremiação que tem planos de vinte anos de poder não é. Fica mais útil submeter os debates a amarras internas. Isto tendo pouca ou, em alguns casos, nenhuma repercussão na mídia. Não que esta última não se interesse pelas deliberações do partido e que não noticie os fatos relativos a estas. Mas há um distanciamento, cada vez maior, entre o governo do PT e a chamada democracia liberal. Ou seja, há uma crise de representatividade no Brasil de Lula e partidos e Congresso Nacional estão cada vez mais fragilizados, relegados a um segundo plano. Lula, como era de se esperar, contribuiu imensamente para este quadro. A unanimidade da candidata do governo, como apareceu na imprensa na aclamação de seu nome no Congresso interno, mostra bem como têm sido simplificadas, ao extremo, as noções, para o público externo, que têm sido veiculadas. É claro que houve questões desenvolvidas no Encontro, mas o que mereceu destaque mesmo foi: o resultado final da esperada “opção” pela candidata. Até porque, quando se trata de tentar excluir o governo de FH da história dita progressista, o que importa mesmo é: submeter diferenças de orientação partidária ao resultado prático, tão intencionalmente pretendido, do lançamento da candidatura de Dilma. E tudo é feito, dizem alguns, na expectativa da transferência de votos de Lula para ela. Embora o ex-sindicalista saiba bem das experiências anteriores pelas quais teve que passar para alcançar a Presidência e, as quais, a sua Ministra não vivenciou até hoje. Essas farão falta a ela.

Aécio Neves tem feito questão de se pronunciar como político, de projeção nacional, de aproximação entre PT e PSDB. Isso causa desconforto quando a disputa eleitoral, para Brasília, parece ficar restrita a oposição acirrada de São Paulo, entre os dois partidos. O fato é que apenas no Estado mais rico, do Brasil, essa luta é “de morte”, sendo a coisa mais fácil encontrar Municípios, e até Estados, onde as duas agremiações estejam do mesmo lado. Principalmente o PT tem enormes dificuldades em aceitar uma aproximação com o PSDB, o que não é tão rigoroso, entre tucanos, quando olham para petistas. Uma prova é que não são poucos os social democratas, liderados por Serra e Aécio, que fazem questão de demonstrar admiração por Lula, um petista. Também não é proibido, dentro do PSDB, elogiar o Presidente do PT. Mas, imaginando que algum militante preferiu Jacques Wagner, o governador baiano do PT, para candidato ao Planalto, então ficou sim proibido de manifestar a sua escolha quando da maioria esmagadora do Congresso do PT. Wagner não é do PSDB, mas para quem não sabe, foi eleito em 2006 com apoio explícito de caciques tucanos do seu Estado. São Paulo não é Bahia. Bahia não é São Paulo. O PSDB em Minas Gerais, este sim, está mais sintonizado, na figura de Aécio, com os baianos, os Nordestinos ou com o Brasil que não é apenas paulista. A imagem de conciliador do governador mineiro remete, também, a este personagem que procura fazer a ligação com o Brasil que vai além do Sudeste ou do Sul. Que inclui outras regiões, como a nordestina, nos planos nacionais. Se , naquele Congresso, o nome de Wagner tivesse surgido, então teria ficado sem validade a estratégia, da direção, de polarização entre Lula e Fernando Henrique, nos seus respectivos governos. As duas legendas estariam mais próximas se representadas pelo governador do Nordeste. A candidata escolhida possui boa relação com Serra e Aécio, mas o lema, daquele Congresso, era o de não permitir a volta do governo do PSDB. Qualquer afinidade com os tucanos era inaudita, pois se o que os fazia unidos, naquele encontro, era exatamente o combate ao passado, representado pelo governo anterior do PSDB. Aécio também queria prévias, que também são uma forma de plebiscito, para a escolha entre ele ou Serra. Dizia que era preciso algo mais do que uma decisão fechada em um pequeno grupo de caciques tucanos. Mas até o seu plebiscito mostraria diferenças com o do PT e o seu Congresso, embora não quisesse competir com o do partido de Lula. Competição, sim, seria com Serra, enquanto Dilma foi candidata única, e exclusiva, no Congresso do partido dela. Portanto, competiu com ela mesma. O evento no tucanato seria diferente, pois mostraria uma alternativa à oposição exclusivista entre os dois partidos paulistas, esta última que prevaleceu e era necessária no plebiscito petista. Aécio, agora, está recolhido em seu Estado, diz que está cuidando da candidatura de seu sucessor, no governo de lá. Mas o seu papel será decisivo para a escolha dos novos ocupantes do Planalto, principalmente por ele recusar o jogo dos paulistas.

Colocado o cenário atual, bastante inspirado pelas pesquisas eleitorais, de um confronto entre Serra (PSDB) e Dilma (PT), mesmo assim é indispensável lembrar de Lula e Aécio. Os candidatos vêm acompanhados dos seus respectivos partidos. Propositalmente, os atuais Presidente e Governador de Minas embora façam parte direta do jogo, não têm uma legenda, aqui destacada, junto deles. Pode-se afirmar a “peemedebização” de Lula. E até lembrar das especulações, ocorridas até o ano passado e depois esquecidas, sobre a mudança, indo para o PMDB, de Aécio. Independente da afinidade que os dois têm com o partido de Ulisses Guimarães e Tancredo Neves (avô de Aécio), se é que isto significa algo relevante para uma agremiação sem uma forma definida, eles são é políticos de muito talento.
---------------------------------------------------------------
sociólogo Guilherme Valle







sábado, 27 de fevereiro de 2010

BOCAINA: UM ALERTA

Há uma ameaça na Serra da Bocaina. A construção da estrada pretendida, ligando a Rio-Santos e a Via Dutra, é um erro grave que trará conseqüências irreversíveis para aquela área de Mata Atlântica. Primeiro, a via irá causar problemas semelhantes ao que a Transamazônica provocou na grande floresta equatorial. Depois, o produto que será trazido, por esse novo acesso, para a região de Angra dos Reis é o urânio consumido na produção nuclear das três usinas.

A Mata Atlântica está atualmente muito pouco preservada. E a Serra da Bocaina possui uma extensão enorme de vegetação nativa. Tem pouco efeito uma unidade de conservação do governo na região se no seu entorno, bem próximo, estará circulando urânio transportado. Fica até uma suspeita de que, em 1971, quando foi criado o Parque, uma determinação irrevogável de expansão rodoviária, ali localizada, já estava sendo cumprida. Era a ditadura militar brasileira e o seu delirante Plano Nacional de Desenvolvimento em curso. O mesmo que fez sangrar a Amazônia em prol de uma aceleração do crescimento sem limites. Combina bem com o PAC atual. É preciso apresentar o problema para que os debates ambiental e o de impacto no meio urbano sejam trazidos à tona. E não é suficiente o trato da questão como fosse exclusivamente de engenharia nuclear ou de estratégia militar. Uma hiper-especialização do tema e um cuidado excessivo com o sigilo das informações não ajudam. Em caso de acidentes com as Usinas um responsável terá que se apresentar perante a população não apenas local, mas também nacional. Volta a ter foco a velha e tão importante defesa do país contra o uso da energia nuclear. Mais ainda, precisava ser empreendido o projeto logo ali, em Angra dos Reis, quando o país é tão grande? Por fim, agora outro território se vê sob risco: o do Parque Nacional de Itatiaia. A fábrica de fornecimento do combustível nuclear fica em Resende, cidade vizinha de Itatiaia. É outra área riquíssima em Mata Atlântica e que merece enorme destaque por abrigar a montanha mais alta do Estado do Rio. Foi o primeiro Parque Nacional brasileiro, criado ainda sob Getúlio Vargas.

A Bocaina não comporta uma estrada nas dimensões pretendidas. Uma via com a pretensão de ligar o fluxo da Rio-Santos ao principal eixo rodoviário da região metropolitana (para fora da capital) precisa ter, no mínimo, a capacidade ampliada que a própria geradora do tráfego vai atingindo ao longo do traçado litorâneo. Deverá, portanto, ter início como continuidade da Rio-Santos para alcançar a meta logística. Nunca menos do que isso. Fauna e flora da Serra tendem a ser mais exóticas quanto mais se avizinham do ecossistema árido do entorno do Pico das Agulhas Negras, este o local mais alto do Estado. É verdade que a altitude em destaque só fica acentuada da Dutra para cima, antes disso não ultrapassando os 1000 metros e um pouco mais. Isso poderia tirar a credibilidade da afirmação da tendência se não fosse o fato do impacto ambiental do grande eixo de rodovias em funcionamento estar exatamente situado no interior do Parque de Itatiaia. Ou, para ser mais preciso, o portão que leva ao santuário ecológico está endereçado na Dutra. Há portanto, uma relação umbilical entre a fundação desta estrada e a da unidade de conservação. Exatamente onde, em sua área de maior altitude, o Parque abriga espécies raras. Basta lembrar que na beira da estrada cresceu o município de Itatiaia e o turismo para ficar atento a uma migração de pássaros em direção a locais menos visitados. Certamente as aves não preferem pousar sobre o asfalto onde um caminhão, mesmo sem transportar urânio, pode esmagá-las.

Em um sentido inverso, é preciso imaginar o deslocamento de combustível nuclear descendo a Bocaina para chegar até Angra. A primeira idéia sobre a obra em questão continha , em si mesma, uma solução de engenharia. Mesmo que não fosse de uma especialização do campo da engenharia nuclear, haveria de contemplar aspectos relativos a uma padronização que não poderia deixar de fora a melhor forma possível de fazer da via um meio seguro para o transporte de material atômico. Mesmo assim, os problemas relativos à urbanização não serão de fácil solução dada a forma como vem sendo tratado o planejamento urbano em Angra. Hoje não é segura a produção das Usinas , pois não há um plano de emergência eficaz. Antes de buscar uma fórmula melhor para dar conta do problema, vale lembrar a forma como Angra se viu obrigada a aceitar o empreendimento de energia na década de 70, em pleno autoritarismo. Os ambientalistas se voltaram, e sempre o farão, contra tais iniciativas. A ocupação desordenada dos morros da cidade é a prova de um descompasso: entre uma pretensão de aceleração do crescimento e uma habitação viável. Além disso, em caso de um acidente com as Usinas, será bastante precária a fuga das áreas afetadas devido à dificuldade de circulação e, pior, às constantes quedas de barreiras ocorridas na Rio-Santos que ampliam o drama. A gravidade dessas observações, antes mesmo da execução do projeto, está atrelada a experiência, não bem-sucedida, dos municípios brasileiros que não oferecem qualidade de vida aos seus habitantes. O que há de mais trágico: a implantação das Usinas e, agora, a rodovia do urânio são uma forma atabalhoada de procurar impactar uma região, com desenvolvimento econômico, visando atender a uma demanda nacional, por energia e tecnologia, que não teme por seus erros. A via que sairá do município da Usina levará a uma mudança de paisagem da Serra da Bocaina.

Estão colocados os argumentos que configuram um alerta. É fundamental realizar um raciocínio que liga um velho debate com um novo perigo: a crítica a construção das Usinas e, agora, um novo pólo de produção nuclear, em outro território, com biodiversidade invejável, que é o Parque de Itatiaia. Entre os dois pólos já começa a funcionar uma “máquina de destruição crônica” e que precisa ser quebrada: a rodovia do urânio.
-------------------------------------------------------------
sociólogo Guilherme Valle

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

LUA DOS EXTREMOS

Apagaram-se as luzes, o computador parou,
mas a lua estava ali.
Quando tudo indicava um tempo estático,
lâmpadas, ventiladores, televisão, tudo
sem funcionamento,
a lua crescente transparecia movimento.
Mesmo com os referenciais humanos inertes,
no céu algo extraordinário se mexia.
Talvez um inseto, na sua pequenez, andava.
Os meus pequenos gestos não falhavam.
E aquela coisa vibrante, no alto, gigantesca fosse, exibia
a sua dinâmica.
Mostrava algo diferente, em cada mínimo instante.
A vida interrompida, em seus afazeres banais,
não calava ao saber que o grande satélite estaria, majestoso,
brilhando, em algum canto do azul infinito que cobre a Terra.
Soberano sobre todo fogo que arde sob o chão.
Chama esta que serve para aquecer e para ser louvada.
Talvez se eu estivesse na rua, em trânsito, o teria visto
prateado e radiante.
Como estava em casa, só percebi o esplendor quando ....
...me dei conta de mim.
E percebi: como no meu peito, dentro de mim,
algo, fora de mim, vivia com abundância.
E o fazia bem distante!
..................................................
Guilherme Valle

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A GRANDE POTÊNCIA IMPERIALISTA CHAMADA ESTADOS UNIDOS

É um título provocativo. Não estamos mais nos anos 60 e 70 do século XX. Nos dias atuais, o termo aqui trazido é visto como ultrapassado. A propalada “sociedade da informação” fez avançar a humanidade para além das suas fronteiras marcadas por conflitos. Mas, uma potência industrial americana do norte, na condição de império, entra facilmente em uma análise que opta por recuar na modernidade dos conceitos visando a uma abordagem mais integral dos fenômenos sociais.

O nome “imperialismo” é, hoje, rejeitado pelo grande público. Passou-se ao emprego, de forma prolixa, de “pós-modernidade” e sociedade “pós-industrial”, principalmente a segunda, para referir uma administração “fria” da sociedade em crise. O uso da linguagem , e o seu desuso, revelam apologias e tabus. A hipereficiência administrativa “pós-industrial” suplantou, em uma dominação sem marcas, o “imperialismo” tratado apressadamente como radical ou destruidor. Talvez o império não seja tão absoluto como querem fazer crer os seus opositores mais panfletários. Nem tão inacessível que não possa mediar a relação entre ricos e pobres ou entre fortes e fracos.

A “sociedade da informação” é uma ideologia defendida nos meios da administração tecnológica avançada. Um domínio conceitual hiperavançado favorece muito mais a reprodução do que a produção de valores capazes de manter e expandir. O conflito social é uma condição para o desenvolvimento de formas mais criativas de relacionamento e o futuro almejado para a humanidade precisa estar bem fundado em soluções que a história preparou nas suas idas e vindas. A modernização tecnológica não pode prescindir do aumento da capacidade produtiva da economia. O capital investido precisa gerar empregos e não apenas vantagens financeiras ou maior produtividade que só leve em consideração a velocidade com que são atendidos os consumidores. As finanças não podem se distanciar da economia real a ponto de ameaçar a estabilidade do sistema produtivo. A evolução da história, que não abre mão de uma economia bem pouco ortodoxa, não pode se realizar pela reprodução dos fatos do passado, mas recusa um acelerado processo produtivo que visa iludir as forças que atuam diretamente na construção de alternativas.

É preciso algum recuo nas transformações de ponta que a tecnologia vem proporcionando à sociedade industrial. Não com relação ao que desponta como vanguarda no séc. XXI. É preferível retomar o importante significado que o uso da energia atômica teve, a partir de meados do século passado, e que continua tendo apesar do esperado e ainda não cumprido desarmamento de Rússia e Estados Unidos. Um império industrial norte-americano, que viveu da ameaça atômica durante a Guerra Fria, ainda sustenta as guerras empreendidas pela potência mundo afora. Apesar das novidades dos novos equipamentos de batalhas, o potencial atômico ainda é a grande força de dissuasão, passado mais de meio século de Hiroshima. A tecnologia digital popularizada na internet e nos celulares não demonstra a mesma intimidade que a atômica tem com o setor industrial da economia, este que por sua vez tem a sua mão de obra bem marcada nas frentes de guerra ao redor do mundo. A chamada “sociedade da informação”, beneficiada pela “revolução” nas comunicações da internet e dos celulares, tem dado, ao contrário, imenso suporte tecnológico para uma expansão sem limites da globalização financeira. Esta última, por seu turno, enche os olhos dos adeptos da sociedade “pós-industrial” que idealizam uma economia de serviços hegemônica. A sociedade “pós-industrial” não ocupa o papel desempenhado pela sociedade industrial, mas é necessário recusar a sofisticação da vida adquirida com o mundo “pacificado” em Hiroshima.

Quem sabe será possível o uso de “imperialismo” sem os tabus que parecem dificultar um esclarecimento maior? Ou se “sociedade da informação” poderá ter um uso mais calcado no desenrolar do drama histórico? O império industrial norte-americano ainda dá as cartas quando os fatos são analisados pelo foco das guerras entre nações ou mesmo da violência associada ao tráfico de drogas nos morros do Rio de Janeiro. Principalmente se considerado o impacto das disputas bélicas que envolvem o medo em torno das bombas atômicas. Do “admirável mundo novo” que a potência nuclear trouxe após a tragédia da cidade japonesa citada é preciso voltar atrás.
-------------------------------------------------------------------
sociólogo Guilherme Valle