sábado, 27 de fevereiro de 2010

BOCAINA: UM ALERTA

Há uma ameaça na Serra da Bocaina. A construção da estrada pretendida, ligando a Rio-Santos e a Via Dutra, é um erro grave que trará conseqüências irreversíveis para aquela área de Mata Atlântica. Primeiro, a via irá causar problemas semelhantes ao que a Transamazônica provocou na grande floresta equatorial. Depois, o produto que será trazido, por esse novo acesso, para a região de Angra dos Reis é o urânio consumido na produção nuclear das três usinas.

A Mata Atlântica está atualmente muito pouco preservada. E a Serra da Bocaina possui uma extensão enorme de vegetação nativa. Tem pouco efeito uma unidade de conservação do governo na região se no seu entorno, bem próximo, estará circulando urânio transportado. Fica até uma suspeita de que, em 1971, quando foi criado o Parque, uma determinação irrevogável de expansão rodoviária, ali localizada, já estava sendo cumprida. Era a ditadura militar brasileira e o seu delirante Plano Nacional de Desenvolvimento em curso. O mesmo que fez sangrar a Amazônia em prol de uma aceleração do crescimento sem limites. Combina bem com o PAC atual. É preciso apresentar o problema para que os debates ambiental e o de impacto no meio urbano sejam trazidos à tona. E não é suficiente o trato da questão como fosse exclusivamente de engenharia nuclear ou de estratégia militar. Uma hiper-especialização do tema e um cuidado excessivo com o sigilo das informações não ajudam. Em caso de acidentes com as Usinas um responsável terá que se apresentar perante a população não apenas local, mas também nacional. Volta a ter foco a velha e tão importante defesa do país contra o uso da energia nuclear. Mais ainda, precisava ser empreendido o projeto logo ali, em Angra dos Reis, quando o país é tão grande? Por fim, agora outro território se vê sob risco: o do Parque Nacional de Itatiaia. A fábrica de fornecimento do combustível nuclear fica em Resende, cidade vizinha de Itatiaia. É outra área riquíssima em Mata Atlântica e que merece enorme destaque por abrigar a montanha mais alta do Estado do Rio. Foi o primeiro Parque Nacional brasileiro, criado ainda sob Getúlio Vargas.

A Bocaina não comporta uma estrada nas dimensões pretendidas. Uma via com a pretensão de ligar o fluxo da Rio-Santos ao principal eixo rodoviário da região metropolitana (para fora da capital) precisa ter, no mínimo, a capacidade ampliada que a própria geradora do tráfego vai atingindo ao longo do traçado litorâneo. Deverá, portanto, ter início como continuidade da Rio-Santos para alcançar a meta logística. Nunca menos do que isso. Fauna e flora da Serra tendem a ser mais exóticas quanto mais se avizinham do ecossistema árido do entorno do Pico das Agulhas Negras, este o local mais alto do Estado. É verdade que a altitude em destaque só fica acentuada da Dutra para cima, antes disso não ultrapassando os 1000 metros e um pouco mais. Isso poderia tirar a credibilidade da afirmação da tendência se não fosse o fato do impacto ambiental do grande eixo de rodovias em funcionamento estar exatamente situado no interior do Parque de Itatiaia. Ou, para ser mais preciso, o portão que leva ao santuário ecológico está endereçado na Dutra. Há portanto, uma relação umbilical entre a fundação desta estrada e a da unidade de conservação. Exatamente onde, em sua área de maior altitude, o Parque abriga espécies raras. Basta lembrar que na beira da estrada cresceu o município de Itatiaia e o turismo para ficar atento a uma migração de pássaros em direção a locais menos visitados. Certamente as aves não preferem pousar sobre o asfalto onde um caminhão, mesmo sem transportar urânio, pode esmagá-las.

Em um sentido inverso, é preciso imaginar o deslocamento de combustível nuclear descendo a Bocaina para chegar até Angra. A primeira idéia sobre a obra em questão continha , em si mesma, uma solução de engenharia. Mesmo que não fosse de uma especialização do campo da engenharia nuclear, haveria de contemplar aspectos relativos a uma padronização que não poderia deixar de fora a melhor forma possível de fazer da via um meio seguro para o transporte de material atômico. Mesmo assim, os problemas relativos à urbanização não serão de fácil solução dada a forma como vem sendo tratado o planejamento urbano em Angra. Hoje não é segura a produção das Usinas , pois não há um plano de emergência eficaz. Antes de buscar uma fórmula melhor para dar conta do problema, vale lembrar a forma como Angra se viu obrigada a aceitar o empreendimento de energia na década de 70, em pleno autoritarismo. Os ambientalistas se voltaram, e sempre o farão, contra tais iniciativas. A ocupação desordenada dos morros da cidade é a prova de um descompasso: entre uma pretensão de aceleração do crescimento e uma habitação viável. Além disso, em caso de um acidente com as Usinas, será bastante precária a fuga das áreas afetadas devido à dificuldade de circulação e, pior, às constantes quedas de barreiras ocorridas na Rio-Santos que ampliam o drama. A gravidade dessas observações, antes mesmo da execução do projeto, está atrelada a experiência, não bem-sucedida, dos municípios brasileiros que não oferecem qualidade de vida aos seus habitantes. O que há de mais trágico: a implantação das Usinas e, agora, a rodovia do urânio são uma forma atabalhoada de procurar impactar uma região, com desenvolvimento econômico, visando atender a uma demanda nacional, por energia e tecnologia, que não teme por seus erros. A via que sairá do município da Usina levará a uma mudança de paisagem da Serra da Bocaina.

Estão colocados os argumentos que configuram um alerta. É fundamental realizar um raciocínio que liga um velho debate com um novo perigo: a crítica a construção das Usinas e, agora, um novo pólo de produção nuclear, em outro território, com biodiversidade invejável, que é o Parque de Itatiaia. Entre os dois pólos já começa a funcionar uma “máquina de destruição crônica” e que precisa ser quebrada: a rodovia do urânio.
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sociólogo Guilherme Valle

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

LUA DOS EXTREMOS

Apagaram-se as luzes, o computador parou,
mas a lua estava ali.
Quando tudo indicava um tempo estático,
lâmpadas, ventiladores, televisão, tudo
sem funcionamento,
a lua crescente transparecia movimento.
Mesmo com os referenciais humanos inertes,
no céu algo extraordinário se mexia.
Talvez um inseto, na sua pequenez, andava.
Os meus pequenos gestos não falhavam.
E aquela coisa vibrante, no alto, gigantesca fosse, exibia
a sua dinâmica.
Mostrava algo diferente, em cada mínimo instante.
A vida interrompida, em seus afazeres banais,
não calava ao saber que o grande satélite estaria, majestoso,
brilhando, em algum canto do azul infinito que cobre a Terra.
Soberano sobre todo fogo que arde sob o chão.
Chama esta que serve para aquecer e para ser louvada.
Talvez se eu estivesse na rua, em trânsito, o teria visto
prateado e radiante.
Como estava em casa, só percebi o esplendor quando ....
...me dei conta de mim.
E percebi: como no meu peito, dentro de mim,
algo, fora de mim, vivia com abundância.
E o fazia bem distante!
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Guilherme Valle

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A GRANDE POTÊNCIA IMPERIALISTA CHAMADA ESTADOS UNIDOS

É um título provocativo. Não estamos mais nos anos 60 e 70 do século XX. Nos dias atuais, o termo aqui trazido é visto como ultrapassado. A propalada “sociedade da informação” fez avançar a humanidade para além das suas fronteiras marcadas por conflitos. Mas, uma potência industrial americana do norte, na condição de império, entra facilmente em uma análise que opta por recuar na modernidade dos conceitos visando a uma abordagem mais integral dos fenômenos sociais.

O nome “imperialismo” é, hoje, rejeitado pelo grande público. Passou-se ao emprego, de forma prolixa, de “pós-modernidade” e sociedade “pós-industrial”, principalmente a segunda, para referir uma administração “fria” da sociedade em crise. O uso da linguagem , e o seu desuso, revelam apologias e tabus. A hipereficiência administrativa “pós-industrial” suplantou, em uma dominação sem marcas, o “imperialismo” tratado apressadamente como radical ou destruidor. Talvez o império não seja tão absoluto como querem fazer crer os seus opositores mais panfletários. Nem tão inacessível que não possa mediar a relação entre ricos e pobres ou entre fortes e fracos.

A “sociedade da informação” é uma ideologia defendida nos meios da administração tecnológica avançada. Um domínio conceitual hiperavançado favorece muito mais a reprodução do que a produção de valores capazes de manter e expandir. O conflito social é uma condição para o desenvolvimento de formas mais criativas de relacionamento e o futuro almejado para a humanidade precisa estar bem fundado em soluções que a história preparou nas suas idas e vindas. A modernização tecnológica não pode prescindir do aumento da capacidade produtiva da economia. O capital investido precisa gerar empregos e não apenas vantagens financeiras ou maior produtividade que só leve em consideração a velocidade com que são atendidos os consumidores. As finanças não podem se distanciar da economia real a ponto de ameaçar a estabilidade do sistema produtivo. A evolução da história, que não abre mão de uma economia bem pouco ortodoxa, não pode se realizar pela reprodução dos fatos do passado, mas recusa um acelerado processo produtivo que visa iludir as forças que atuam diretamente na construção de alternativas.

É preciso algum recuo nas transformações de ponta que a tecnologia vem proporcionando à sociedade industrial. Não com relação ao que desponta como vanguarda no séc. XXI. É preferível retomar o importante significado que o uso da energia atômica teve, a partir de meados do século passado, e que continua tendo apesar do esperado e ainda não cumprido desarmamento de Rússia e Estados Unidos. Um império industrial norte-americano, que viveu da ameaça atômica durante a Guerra Fria, ainda sustenta as guerras empreendidas pela potência mundo afora. Apesar das novidades dos novos equipamentos de batalhas, o potencial atômico ainda é a grande força de dissuasão, passado mais de meio século de Hiroshima. A tecnologia digital popularizada na internet e nos celulares não demonstra a mesma intimidade que a atômica tem com o setor industrial da economia, este que por sua vez tem a sua mão de obra bem marcada nas frentes de guerra ao redor do mundo. A chamada “sociedade da informação”, beneficiada pela “revolução” nas comunicações da internet e dos celulares, tem dado, ao contrário, imenso suporte tecnológico para uma expansão sem limites da globalização financeira. Esta última, por seu turno, enche os olhos dos adeptos da sociedade “pós-industrial” que idealizam uma economia de serviços hegemônica. A sociedade “pós-industrial” não ocupa o papel desempenhado pela sociedade industrial, mas é necessário recusar a sofisticação da vida adquirida com o mundo “pacificado” em Hiroshima.

Quem sabe será possível o uso de “imperialismo” sem os tabus que parecem dificultar um esclarecimento maior? Ou se “sociedade da informação” poderá ter um uso mais calcado no desenrolar do drama histórico? O império industrial norte-americano ainda dá as cartas quando os fatos são analisados pelo foco das guerras entre nações ou mesmo da violência associada ao tráfico de drogas nos morros do Rio de Janeiro. Principalmente se considerado o impacto das disputas bélicas que envolvem o medo em torno das bombas atômicas. Do “admirável mundo novo” que a potência nuclear trouxe após a tragédia da cidade japonesa citada é preciso voltar atrás.
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sociólogo Guilherme Valle