quinta-feira, 27 de maio de 2010

sábado, 22 de maio de 2010

A FESTA DE SANTO ANTÔNIO, EM NITERÓI (RJ)


O mês das comemorações por Santo Antônio guarda festas juninas, por todos os cantos do País. Em Niterói, cidade que faz a ligação da Capital com o interior do Estado, caipiras enfeitam a rua da Igreja Porciúncula de Santana, no bairro de Icaraí. O fechamento da rua possui muitos significados. Três se destacam: trata-se de uma festa tradicional de uma cidade não tão grande assim; é uma festa de Paróquia e a alegria não vê limites nos muros da Igreja; Santo Antônio é o Santo popular que não cabe entre os muros.

Niterói é bem menor do que o Rio, a Capital, e lembra um pouco o interior do Estado. Fosse na cidade grande, não seria tão fácil a interrupção, do trânsito local, por uma festa, que não é o show da Madona ou dos Rolling Stones. Necessariamente haveria muito mais critérios para fechar uma Avenida de uma cidade como o Rio. A Rua de acesso é a Av. Roberto Silveira. É, nada mais e nada menos, a principal da cidade. Pois este é o endereço, em Niterói, de uma festa popularíssima, no Nordeste do Brasil, e que é famosa, no Centro–Sul, justamente por caricaturar os costumes dos sertanejos. A rua da Igreja, esta em foco, talvez não fosse a maior referência caso estivesse localizada na cidade sede do Governo do Estado.

A impressão que dá é a de toda uma cidade presente ali, embora isto não seja a realidade. Esta ficção se confirma dependendo do nível de animação proporcionado. O movimento intenso , a música e a bebida alcoólica podem aumentar o efeito. A mesma imaginação é também a que leva a extrapolar os limites, marcados pelos muros. Se é uma festa para a cidade inteira , então , as fronteiras físicas não possuem mais a importância que têm quando separam o privado do público. É como se fossem derrubadas, postas abaixo. Ganha-se, portanto, a rua. Conquista-se o espaço público. Há mesmo uma relevância, neste caso, de dar à Paróquia o que lhe é devido: uma posição central no processo de ocupação do espaço da cidade, quando esta não é uma metrópole.

Finalmente, a devoção a Santo Antônio possui características próprias. A sua popularidade é tão grande que chega até ao “povo da rua”. Aliás, por que o leigo, sobre a sua vida e obra, não mereceria ser ouvido? Talvez este seja versado sobre uma característica de Antônio que deve ser lembrada: a da boa fama. O Santo protetor dos pobres quer dar acolhimento aos mendigos e todos sabem onde eles estão: nas ruas. A festa é para fora do espaço privado. É nas calçadas onde transitam as pessoas ao som dos forrós e outras músicas. É no espaço público onde as barraquinhas recebem as pessoas ávidas por comidas e bebidas. É onde o Santo casamenteiro acompanha a todos: na rua.

Niterói abre-se para os festejos diferente de uma Metrópole. O entra e sai tem a Igreja como referência e vai além dos limites do público. Santo Antônio é do povo. E a festa vai começar!
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Guilherme Valle, sociólogo

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A SANTA E A “DADA”: DUAS MULHERES


Na Igreja Romana, a devoção à Maria ganha ares de recato. Basta olhar para a imagem da Mãe de Deus: apenas deixa aparecer o seu rosto. Na Umbanda, Iemanjá pode ser exibida com os seios à mostra. Nenhuma pureza das vestes de Maria encobre a divindade de origem africana. Fica uma sugestão: uma é a Santa e a outra está bem longe disso. Mas são ambas mulheres. Nada mais e nada menos.

Santa Maria vem vestida com “sobriedade”. Dificilmente será encontrada, enquanto a sua imagem estiver sendo cultuada, com roupas diferentes de túnicas, que só permitem ver as mãos. Isto quando não são usadas luvas. A cabeça vem sob o véu. Face e mãos demonstram um comportamento de tranqüilidade favorável às pessoas em momento de oração. Mãos retas e juntadas ou direcionando um movimento unificado. Rosto sem aparentar tristeza ou alegria figuradas em olhos e bocas de lamentos ou sorrisos exagerados. (considerando que uma mulher de fé , como Maria, não se desesperou diante da Cruz) Muitas outras sugestões poderiam ser lembradas aqui. Mas parece desnecessário relatar uma Maria Santíssima tão casta, pois é assim mesmo que é vista em sua figura pintada pela Igreja Poderosa, sediada no Vaticano. Já é bem conhecida sob tantos panos e tecidos. Um detalhamento maior é um trabalho desperdiçado. Basta um “manual” que produz “cópias” de Maria ao estilo noiva de um anjo.

Iemanjá pode estar seminua. Ou nua mesmo, se for o caso de uma mulher que não traz consigo uma das peças de sua roupa. Assim retratada, acaba sugerindo alguma atitude corporal menos passiva em uma interação humana. Certamente não aparenta um corpo inerte, como é representado o equipamento humano em uma foto de manual de anatomia médica. Os braços buscam um encontro. Não estão, portanto, desenhados retos voltados para baixo. Ou então mostram-se soltos e não caracterizando o direcionamento que os leva a um ângulo de 90 graus com o chão. A parte inferior do corpo também passa a idéia de movimento, o que, mais uma vez, não se enquadra na atividade/passividade da pélvis para dentro do corpo (o sentido para fora do corpo é desenvolvido com o corpo mole e não rígido) ou direcionada para o chão. A cabeça parece acompanhar o resto do corpo ou fica solta para trás. Para frente ou para trás, certamente não é passiva como seria se fosse servir como modelo de anatomia.

Iemanjá não é Santa para os católicos, mas também transmite bondade em seus gestos. Maria é completamente Santa, mas é também mulher. Como exemplo feminino, não o é por sua anatomia simplesmente. Vive no corpo de uma mulher muito além da sua Santidade. Ou, como humana que foi (e continua sendo), está muito aquém da “santinha”. Pois é simples, como é o seu filho Jesus. O que pode parecer abstração teológica não passa de uma defesa humana do que há de mais humano.

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Guilherme Valle, sociólogo

domingo, 16 de maio de 2010

SAMBA DO VAI E VEM


Entra e sai
na fila um vai não vai
um companheiro sai
outro no samba cai.

Entra e sai
o povo vem não vem
dois companheiros têm
medo do não do Pai.

Vai e vem
no sim ou não de alguém
no coração, que nem
o sai não sai de um trem.

Vai e vem
ajeita aqui e lá
não dá pra comparar
sai mesmo é quem quer ficar.
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Guilherme Valle

quinta-feira, 6 de maio de 2010

ELEIÇÕES 2010: CONTRA A RADICALIZAÇÃO ENTRE PT E PSDB


É necessário tentar trazer o tema das eleições para a roda. Pois pouco adianta refletir sobre isso apenas dois minutos antes de digitar o confirma, na urna eletrônica. É preciso trazer a tona a política eleitoral com antecedência. Para atingir essa meta este texto pode ser útil. Ao menos para estimular uma conversa. De cara, os próximos meses não podem ficar resumidos a um jogo, de bater e apanhar, entre PT e PSDB. O processo eleitoral, assim realizado, fica simplificado demais. Melhor mesmo é tentar aproximar os dois maiores partidos brasileiros. É enxergar os últimos dezesseis anos, da política brasileira, como um período de continuidade entre dois projetos afins.

O cenário de oposição acirrada entre os dois partidos não pode interessar ao eleitor. Eleições não são como final de campeonato. Interessa mais aos petistas e social democratas paulistas essa radicalização. Não ao Brasil. Apesar de São Paulo ser o Estado mais rico, há também áreas carentes dos serviços do Governo, como o Nordeste do Brasil. O Estado de Minas Gerais precisa ser respeitado nas suas vontades. A Amazônia merece ser trazida, com mais profundidade, para o cotidiano do Sudeste. Nada contra os paulistas. O PT paulista quer dividir a Federação brasileira em dois partidos antagônicos e transformar as decisões soberanas, como é a Eleição, em simples plebiscitos. O PSDB paulista reforça, erroneamente, o desejo de “tirar sangue” do outro. São erros das duas partes, que fingem estar em conflito, quando, na verdade, tiveram uma origem comum. Basta lembrar que, na década de 70, Fernando Henrique (PSDB) participou das reuniões que levaram à fundação do PT.

A proximidade, entre petistas e social democratas, deve ser buscada. Mediar conflitos é melhor do que botar mais “lenha na fogueira”. Não se trata apenas de governar juntos, mas deixar claro a diferença entre as duas agremiações. Embora para o PSDB essa distinção partidária signifique pouco demais. E para o PT isso possa servir de credencial, com pouca validade, para proteger os amigos, de acusações graves, na política. Há, sem dúvida, algo importante para a economia e para a política, nos últimos vinte anos. O Plano Real. A estabilização dos preços. Apesar de implantado por FH, o fato é que o governo do PT também foi beneficiado por ele. Há, portanto, uma mesma orientação , nos dois governos dos dois partidos, na condução da economia. Isto é uma prova de que não há mudança radical de um governo para o outro, mesmo sabendo dos prejuízos de manter, de forma exagerada, os preços sob controle. É importante saber escolher aliados políticos. Almejar uma conciliação dos dois projetos para que as duas forças não fiquem, cada uma separadamente, lançando mão de alianças prioritárias com partidos como PMDB e DEM e nem agremiações ruins como PR, PTB e PP.

É delicado tratar de política dentro de um grupo de Igreja. As duas coisas não se misturam, embora não seja possível deixar o tema de lado. É preciso avançar nesta discussão até o limite de não tentar convencer um eleitor de partido A ou B. Sem o PT e o PSDB, sobram o PV e o PSOL. Optar pela causa do meio ambiente (PV) não é privilégio dos verdes. O socialismo (PSOL) é também um espaço de atuação política legitimado dentro da Igreja. O que não impede que PT e PSDB deixem as suas diferenças de lado.

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Guilherme Valle, sociólogo