O Brasil entrou na década de 90, a partir da abertura comercial, com propostas liberalizantes para a sua economia. Avançou este processo na gestão de FHC. E mais ainda na de Lula, a partir de 2002. É preciso uma mudança de rumos , agora em 2010, que mantenha a estabilidade alcançada com o Plano Real, mas comece a reduzir com mais intensidade os juros básicos sem se deixar amedrontar pelo risco inflacionário.
A frase de Fernando Collor, em seu curto governo, tratando os automóveis brasileiros como “carroças”, que precisariam ser substituídas por modelos importados mais modernos, é bem esclarecedora. A indústria automobilística montadora nacional deveria , rapidamente, se adequar aos novos tempos, de acordo com essas determinações. Era vista como pouco competitiva no mercado internacional. A sua reestruturação seria a receita de sobrevivência. A hiperinflação foi atacada por uma política de choque, quando, de um dia para o outro, o confisco bancário seria um remédio para sanear as finanças da nação. Não durou muito tempo: os preços voltaram a aumentar. Apesar de o Real ter seguido, mais tarde , por um outro caminho, o que o fez relativamente bem sucedido, a abertura comercial da Era Collor foi um dos fatores que o ajudaram para uma boa execução.
O período de Fernando Henrique, marcado pelo desenvolvimento do Real, foi inspirado por um modelo de Estado Mínimo. Este teve nas privatizações o seu lado mais polêmico, nas reformas estruturais, nunca concluídas, a solução alardeada para a busca de um equilíbrio fiscal e ainda nas políticas sociais, com gestão mais moderna, a face Estatal atuante no combate a pobreza e visando a ampliação do nível de escolaridade. A diminuição do tamanho do Estado era vista como uma das formas, com enorme destaque, de torná-lo mais eficiente. Depois de oito anos, o desemprego não recuou, o crescimento do PIB foi pequeno e o investimento público, na ampliação da infraestrutura da economia, foi pouco, considerando o tamanho de um país em desenvolvimento como o Brasil. O lucro dos bancos foi enorme, ao fim daqueles anos, principalmente pela altíssima taxa de juros básica que lhes foi muito favorável. O Real se consolidou e a estabilidade de preços foi um importante fator para que houvesse, ao fim e ao cabo, distribuição de renda. Mas a pobreza continuou alarmante. No governo tucano iniciou-se o regime de metas para a inflação, a flutuação cambial e o ajuste fiscal era uma pré-condição para o sucesso do Real.
O governo de Lula acentuou o caráter ortodoxo da economia, principalmente em seu primeiro mandato. O Bolsa Família nunca foi (e nunca será), a não ser que se queira torná-lo de vez um programa sem foco e ineficiente, mera distribuição de dinheiro para famílias pobres. Mas serviu muito bem, em todos estes anos, como forma de compensar a tremenda dívida que o governo vem deixando para o Brasil. Pior, uma dívida que rendeu lucros recordes para os bancos. Naqueles anos sob Antônio Palocci, o crescimento da economia mundial foi elevado. E o Bolsa Família pagou muito pouco aos pobres quando considerado que já era uma medida falha para atender ao que era visto na sua propaganda. Era superdimensionado, embora a realidade fosse outra, no seu propósito de diminuir as desigualdades. Mais ainda, nos anos que se seguiram, houve um aumento ainda maior do PIB brasileiro, mas praticamente já havia sido batida a meta tão alardeada de 10 milhões de famílias recebendo o benefício. Este número, na casa dos milhões, ainda cresceu posteriormente. Mas não tinha relevância para o debate mais importante, de um combate mais efetivo da pobreza, que incluísse variáveis de política econômica. Com todas essas informações colocadas, mesmo assim é preciso dizer: o gasto total anual com as bolsas, até agora, foi muito baixo quando comparado com o tamanho da dívida pública interna brasileira, que é financiada por banqueiros cada vez mais ricos ( em uma variação tal dos seus lucros que, talvez, sirva mais para manter a dívida em altos patamares, em um prazo indefinido, em vez de contribuir para a sua diminuição mais acelerada). O regime de metas de inflação foi perseguido, rigorosamente, pelo Banco Central, desde 2003. O que em alguns momentos parece exagero, pois se a alta dos preços não está no centro da meta não há problemas. Ainda é possível alguma variação, para mais ou para menos, e o controle do processo será mantido da mesma forma. Nos anos todos desse governo, o câmbio flutuou livremente. Não houve intervenção por parte da Fazenda. O dólar barato, como ocorria ainda agora, é desfavorável às exportações. O dólar caro, como aconteceu nos dias da posse de Lula, era sintoma da fuga de capitais estrangeiros. Revelava a vulnerabilidade da nossa economia e levou ao aumento extremo dos juros pelo BC. No primeiro mandato, houve rigor com as metas de superávit primário (economia para pagamento de juros). No seguinte, nem tanto, bastando a crise de 2008/2009 para a flexibilização das metas. Pode-se dizer que os agentes do mercado financeiro entenderam como tivesse havido algum rigor, embora algumas destas opiniões, corretamente, tenham criticado a elevação dos gastos governamentais correntes e o baixo nível dos investimentos públicos.
É necessário fugir da amarra imposta pelos ortodoxos. Eles valorizam o controle da inflação mais até do que a capacidade, da economia, de gerar empregos. A crise, em 2008/09, pagou-lhes tributos, apesar da diminuição dos juros. Mesmo assim, continuaram muito altos. O suficiente para remunerar um capital que encontrou o seu paraíso nos ditos países emergentes. Buscaram taxas de 9%. Enquanto isso, Estados Unidos e países ricos da União Européia não lhes garantiam nem 1 ou 2%. Na América, os juros foram a 0% (zero). Estes mercados elegeram como emergentes nações que passaram a ser chamadas de Brics: Brasil, Rússia, Índia e China. Foi a sigla inventada por Agências de Classificação de Riscos, que as recomendam como destinos para investimentos. Seus padrões para análises são distorcidos, pois têm entre suas variáveis pontos positivos atribuídos a governos como o da Ditadura Chinesa, esta que pode impor ao seu povo um livre mercado. À exceção da Rússia, os outros não foram afetados pela crise, em suas finanças, como foram os EUA e a União Européia. Passada a crise no Brasil, aqui já aumentam as especulações sobre a inflação. Esquecem que uma das novidades do Plano Real, e que foi uma das qualidades que permitiram o cumprimento de expectativas, foi trocar os choques de inflação pelo controle desta. Segurar, com máxima prioridade de política econômica, os aumentos de preços bem próximos do centro da meta pretendida lembra mais uma opção pelos choques. Um monitoramento mais eficiente visando o controle, me parece, permitiria alguma variação , desde que não ultrapassasse os limites mínimos e máximos. Mesmo respeitando as metas, o mais importante seria um estímulo à atividade produtiva, não sendo aconselhável criar obstáculos ao crédito. Uma preocupação desnecessária com a inflação está levando ao aumento das expectativas futuras com os juros e a alguma escassês de crédito no mercado. Em uma visão mais heterodoxa, seria possível também, sem intervenção da equipe econômica (a exceção do BC atuando no mercado de câmbio), chegar a um dólar desejável em torno dos 2 reais. Nem muito barato e nem muito caro. Com relação ao superávit primário, deve ser acompanhado de outras medidas que indiquem um ajustamento das contas públicas, não sendo suficiente.
A diminuição dos juros precisa ser mais acelerada. É verdade, não deve vir em apenas uma “canetada” do governo. A progressividade coopera com a necessidade de respeitar as expectativas do mercado financeiro. Mas deve ser mais intensa, menos tímida. A manutenção das metas inflacionárias , da flutuação no câmbio e do rigor fiscal já são uma sinalização para os economistas atuantes nas bolsas. Entretanto, um conservadorismo que iniba uma queda maior nos juros básicos são um aceno para uma minoria de grandes capitalistas das finanças, que pretendem viver sob a sombra dos favores de um governo com uma alta dívida interna lucrativa. Estes não esperam do Brasil um país produtivo. Esperam mais um futuro próximo com uma inflação em índices crescentes que force o governo ( este convencido da necessidade de favorecer alguns poucos agentes financeiros nacionais influentes em Brasília ) a uma inibição do consumo, através de obstáculos ao crédito para produtos que geram poupança e que também exijem investimentos dentro do processo produção-consumo. Já é hora de enfrentar o medo dos preços em elevação com mais facilidades ao crédito que leva a investimentos na capacidade produtiva
A frase de Fernando Collor, em seu curto governo, tratando os automóveis brasileiros como “carroças”, que precisariam ser substituídas por modelos importados mais modernos, é bem esclarecedora. A indústria automobilística montadora nacional deveria , rapidamente, se adequar aos novos tempos, de acordo com essas determinações. Era vista como pouco competitiva no mercado internacional. A sua reestruturação seria a receita de sobrevivência. A hiperinflação foi atacada por uma política de choque, quando, de um dia para o outro, o confisco bancário seria um remédio para sanear as finanças da nação. Não durou muito tempo: os preços voltaram a aumentar. Apesar de o Real ter seguido, mais tarde , por um outro caminho, o que o fez relativamente bem sucedido, a abertura comercial da Era Collor foi um dos fatores que o ajudaram para uma boa execução.
O período de Fernando Henrique, marcado pelo desenvolvimento do Real, foi inspirado por um modelo de Estado Mínimo. Este teve nas privatizações o seu lado mais polêmico, nas reformas estruturais, nunca concluídas, a solução alardeada para a busca de um equilíbrio fiscal e ainda nas políticas sociais, com gestão mais moderna, a face Estatal atuante no combate a pobreza e visando a ampliação do nível de escolaridade. A diminuição do tamanho do Estado era vista como uma das formas, com enorme destaque, de torná-lo mais eficiente. Depois de oito anos, o desemprego não recuou, o crescimento do PIB foi pequeno e o investimento público, na ampliação da infraestrutura da economia, foi pouco, considerando o tamanho de um país em desenvolvimento como o Brasil. O lucro dos bancos foi enorme, ao fim daqueles anos, principalmente pela altíssima taxa de juros básica que lhes foi muito favorável. O Real se consolidou e a estabilidade de preços foi um importante fator para que houvesse, ao fim e ao cabo, distribuição de renda. Mas a pobreza continuou alarmante. No governo tucano iniciou-se o regime de metas para a inflação, a flutuação cambial e o ajuste fiscal era uma pré-condição para o sucesso do Real.
O governo de Lula acentuou o caráter ortodoxo da economia, principalmente em seu primeiro mandato. O Bolsa Família nunca foi (e nunca será), a não ser que se queira torná-lo de vez um programa sem foco e ineficiente, mera distribuição de dinheiro para famílias pobres. Mas serviu muito bem, em todos estes anos, como forma de compensar a tremenda dívida que o governo vem deixando para o Brasil. Pior, uma dívida que rendeu lucros recordes para os bancos. Naqueles anos sob Antônio Palocci, o crescimento da economia mundial foi elevado. E o Bolsa Família pagou muito pouco aos pobres quando considerado que já era uma medida falha para atender ao que era visto na sua propaganda. Era superdimensionado, embora a realidade fosse outra, no seu propósito de diminuir as desigualdades. Mais ainda, nos anos que se seguiram, houve um aumento ainda maior do PIB brasileiro, mas praticamente já havia sido batida a meta tão alardeada de 10 milhões de famílias recebendo o benefício. Este número, na casa dos milhões, ainda cresceu posteriormente. Mas não tinha relevância para o debate mais importante, de um combate mais efetivo da pobreza, que incluísse variáveis de política econômica. Com todas essas informações colocadas, mesmo assim é preciso dizer: o gasto total anual com as bolsas, até agora, foi muito baixo quando comparado com o tamanho da dívida pública interna brasileira, que é financiada por banqueiros cada vez mais ricos ( em uma variação tal dos seus lucros que, talvez, sirva mais para manter a dívida em altos patamares, em um prazo indefinido, em vez de contribuir para a sua diminuição mais acelerada). O regime de metas de inflação foi perseguido, rigorosamente, pelo Banco Central, desde 2003. O que em alguns momentos parece exagero, pois se a alta dos preços não está no centro da meta não há problemas. Ainda é possível alguma variação, para mais ou para menos, e o controle do processo será mantido da mesma forma. Nos anos todos desse governo, o câmbio flutuou livremente. Não houve intervenção por parte da Fazenda. O dólar barato, como ocorria ainda agora, é desfavorável às exportações. O dólar caro, como aconteceu nos dias da posse de Lula, era sintoma da fuga de capitais estrangeiros. Revelava a vulnerabilidade da nossa economia e levou ao aumento extremo dos juros pelo BC. No primeiro mandato, houve rigor com as metas de superávit primário (economia para pagamento de juros). No seguinte, nem tanto, bastando a crise de 2008/2009 para a flexibilização das metas. Pode-se dizer que os agentes do mercado financeiro entenderam como tivesse havido algum rigor, embora algumas destas opiniões, corretamente, tenham criticado a elevação dos gastos governamentais correntes e o baixo nível dos investimentos públicos.
É necessário fugir da amarra imposta pelos ortodoxos. Eles valorizam o controle da inflação mais até do que a capacidade, da economia, de gerar empregos. A crise, em 2008/09, pagou-lhes tributos, apesar da diminuição dos juros. Mesmo assim, continuaram muito altos. O suficiente para remunerar um capital que encontrou o seu paraíso nos ditos países emergentes. Buscaram taxas de 9%. Enquanto isso, Estados Unidos e países ricos da União Européia não lhes garantiam nem 1 ou 2%. Na América, os juros foram a 0% (zero). Estes mercados elegeram como emergentes nações que passaram a ser chamadas de Brics: Brasil, Rússia, Índia e China. Foi a sigla inventada por Agências de Classificação de Riscos, que as recomendam como destinos para investimentos. Seus padrões para análises são distorcidos, pois têm entre suas variáveis pontos positivos atribuídos a governos como o da Ditadura Chinesa, esta que pode impor ao seu povo um livre mercado. À exceção da Rússia, os outros não foram afetados pela crise, em suas finanças, como foram os EUA e a União Européia. Passada a crise no Brasil, aqui já aumentam as especulações sobre a inflação. Esquecem que uma das novidades do Plano Real, e que foi uma das qualidades que permitiram o cumprimento de expectativas, foi trocar os choques de inflação pelo controle desta. Segurar, com máxima prioridade de política econômica, os aumentos de preços bem próximos do centro da meta pretendida lembra mais uma opção pelos choques. Um monitoramento mais eficiente visando o controle, me parece, permitiria alguma variação , desde que não ultrapassasse os limites mínimos e máximos. Mesmo respeitando as metas, o mais importante seria um estímulo à atividade produtiva, não sendo aconselhável criar obstáculos ao crédito. Uma preocupação desnecessária com a inflação está levando ao aumento das expectativas futuras com os juros e a alguma escassês de crédito no mercado. Em uma visão mais heterodoxa, seria possível também, sem intervenção da equipe econômica (a exceção do BC atuando no mercado de câmbio), chegar a um dólar desejável em torno dos 2 reais. Nem muito barato e nem muito caro. Com relação ao superávit primário, deve ser acompanhado de outras medidas que indiquem um ajustamento das contas públicas, não sendo suficiente.
A diminuição dos juros precisa ser mais acelerada. É verdade, não deve vir em apenas uma “canetada” do governo. A progressividade coopera com a necessidade de respeitar as expectativas do mercado financeiro. Mas deve ser mais intensa, menos tímida. A manutenção das metas inflacionárias , da flutuação no câmbio e do rigor fiscal já são uma sinalização para os economistas atuantes nas bolsas. Entretanto, um conservadorismo que iniba uma queda maior nos juros básicos são um aceno para uma minoria de grandes capitalistas das finanças, que pretendem viver sob a sombra dos favores de um governo com uma alta dívida interna lucrativa. Estes não esperam do Brasil um país produtivo. Esperam mais um futuro próximo com uma inflação em índices crescentes que force o governo ( este convencido da necessidade de favorecer alguns poucos agentes financeiros nacionais influentes em Brasília ) a uma inibição do consumo, através de obstáculos ao crédito para produtos que geram poupança e que também exijem investimentos dentro do processo produção-consumo. Já é hora de enfrentar o medo dos preços em elevação com mais facilidades ao crédito que leva a investimentos na capacidade produtiva
do país.
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Guilherme Valle, sociólogo